CITELLI, Adilson Odair; COSTA, Maria Cristina Castilho (orgs.). Educomunicação: construindo uma nova área de conhecimento. São Paulo: Paulinas, 2011.
 
O livro debate e apresenta o tema Educomunicação, através de vários artigos que foram sendo escritos no decorrer do tempo, na consolidação, chegada e construção da nova área nas universidades e pesquisas. Apresenta como a sociedade se comporta diante da nova área, principalmente o comportamento das áreas que a compõem, sendo tecnologias, comunicação e educação.
No primeiro artigo, Ismar de Oliveira Soares traz o tema educomunicação, como um campo de mediações que vem se firmando principalmente na América Latina, esse referencial teórico que sustenta uma inter-relação entre a comunicação e a educação como um campo de diálogo, um espaço para o conhecimento crítico e criativo, solidário e cidadão.
Algumas perguntas são levantadas e chega-se a conclusão que para aprender algo, eu preciso conhecer sobre isso, como por exemplo, é impossível querer ensinar através das tecnologias para pessoas que não a conhecem, por isso a educomunicação pode entrar para mediar esse aprendizado, utilizando uma forma diferente, mas a forma que vai atingir o conhecimento das pessoas envolvidas e assim gerar mais conhecimento.
Mesmo com o grande debate das tecnologias na educação, das melhores formas de utilizá-las em sala de aula, ainda nos deparamos com uma difícil realidade: temos professores sem acesso à tecnologia e que nem mesmo conhece as ferramentas tecnológicas.
Com o “boom” da tecnologia na educação, o que se destacou foi a inserção e crescimento do ensino a distâncias, mas nem sempre o ensino a distância usam-se professores para transmitir o conhecimento aos alunos, e com isso surgem algumas dúvidas como de onde vêm essas fontes? Até onde podemos confiar nelas? Esse modo de ensino é o melhor a oferecer a nossos cidadãos?
Maria Aparecida Baccega defende que a área comunicação/educação está construindo uma nova variável histórica através de um ensino diferente do que vivemos atualmente nas escolas, um ensino “não-pedagógico”, pois a educomunicação quebra a hierarquia, onde o professor e os alunos estão em um mesmo nível, onde todos constroem o conhecimento juntos e a formação dos professores deve ser mudada para conseguirmos aplicar essa nova área.
O governo de São Paulo já percebeu que a educomunicação é importante, tanto que nas escolas municipais já está trabalhando e na USP existe a licenciatura em Educomunicação.
Vivemos em um mundo editado onde os meios decidem por nós quem será santo ou demônio da história. Por isso, devemos abrir os olhos para as constantes manipulações, a forma que a mídia nos usa e nos edita, pois a informação é manipulada para podermos ser editados de acordo com os interesses existentes.
Infelizmente em nosso país não temos programação educativa em nossos canais de comunicação e na maioria dos casos, quando a mídia coloca programação educativa na grade é apenas para atender a legislação que exige uma programação educativa e não para realmente educar. Por isso, sempre colocam os programas educativos em horários em que poucas pessoas assistem, como o horário de 5:00h da manhã.
Deve-se trabalhar para que a tecnologia/educomunicação não ocorra apenas na escola, mas também nos meios, na sociedade, na família, pois não basta termos a tecnologia apenas na escola, é necessário termos ela em todo nosso convívio para vivermos e aprendermos a lidar com ela.
Ao contrário do que se pensa a tecnologia não está apenas nas mídias, nos aparelhos eletrônicos, mas também nas formas em que são aplicadas, por exemplo, em uma caneta existe tecnologia, pois foram utilizadas tecnologias para fabricá-la.
A questão cultural e a atribuição de sentidos criados geram conflitos pelo motivo que cada um possui uma identidade, uma cultura, uma forma de pensar, por isso uma mesma informação pode ter diversos sentidos e entendimentos. Sendo assim, a questão da imparcialidade é difícil através da realidade, pois é muito difícil trabalhar esse distanciamento e não usar sua cultura, seu conhecimento. Não podemos ignorar a cultura do sujeito, ou seja, tudo aquilo que nos cerca, pois a mesma possui uma grande importância para construção desse campo. É necessário um exercício crítico diariamente.
No mundo atual temos muita informação e pouco tempo, além da questão de espaço, onde temos tudo perto. E como selecionar as informações devido ao tempo? Fica ai uma pergunta difícil de responder. Por isso o mundo editado faz edição dos fatos e informações, assim devemos ser protagonistas e criar nosso próprio mundo e não aceitar o que vem pronto, não aceitar edições alheias, tudo isso com respeito pela diversidade e reconhecimento que preciso do outro.
Maria Immacolata Vassalo de Lopes apresenta pesquisas de recepção e educação para os meios e apresenta a maneira que o indivíduo recebe as informações do meio e como se interage com os meios de comunicação. As práticas cotidianas aparecem ligadas a recepção de informações, que são ligadas a tradição, preocupações, expectativas de vida, família, valores e comportamento existente.
Solange Martins Couceiro de Lima acredita que com a comunicação e educação é possível olhar para a diversidade, visto que a educação não se limita a escola e aos meios formais/intencionais com os quais trabalha, mas é um campo amplo e encontra-se em processo na família, nas relações sociais, no trabalho, na sociedade, na cultura, nos meios de comunicação inseridos nesses ambientes.
Com a LDB Lei nº 9391, 1996 foram criados os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN´s onde se apresenta uma educação para a cidadania, ensino de qualidade, docentes preparados e conhecedores dos avanços das pesquisas em diferentes áreas do conhecimento. Sendo assim estaria aplicando-se a educomunicação, além de olhar para a diversidade.
Adilson Odair Citelli apresenta as implicações contemporâneas da Comunicação e educação. Aponta que a tecnologia está provocando profundas transformações sociais, e de algum modo está promovendo impactos diretamente na vida dos homens e mulheres do nosso tempo, quer velando, quer revelando ou desvelando informações e conhecimentos.
Mesmo com a nova área e as tecnologias na educação, os docentes continuam sendo os grandes agentes mediadores dos conhecimentos com alunos. Percebe-se que os professores participam do crescente acesso as tecnologias digitais. Segundo Paulo Freire a educação é comunicação, diálogo, na medida em que não é transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação do significado.
Tanto os professores quanto os alunos circulam em território marcado pelos diversos dispositivos comunicacionais e a escola vem cada vez mais se aproximando desses meios. Porém, o que se encontra em sala de aula é muitas vezes um sistema em crise com enorme quantidade de problemas e que não consegue cumprir nem seu objetivo fim que é promover ensino de qualidade aos estudantes.
Maria Cristina Castilho Costa afirma que censura não é educação e que atualmente os principais alvos da censura são os meios de comunicação que globalizou a discussão.
Ao apresentar um texto expondo a censura que nosso país viveu na ditadura, afirma que a única medida eficaz para combater abusos é a educação do público, o julgamento e o exercício da cidadania para rejeitar e recusar aquilo que se considera pernicioso ou abusivo. Censura não educa, mas acabrunha, produz injustiças, reafirma estereótipos e trabalha a favor do poder instituído, da religião predominante, do preconceito. A educação sim pode formar um público exigente e rigoroso e não proibir, pois a proibição de livros e filmes, por exemplo, provoca curiosidade e alimenta sua circulação ilegal.
O público deve ser tratado como cidadão, deve ser preservado o seu direito a informação e deve-se acreditar na sua capacidade de, como receptor, conseguir escolher entre o bem e o mal e comer da “árvore da sabedoria” e nesse sentido a educação tem muito a contribuir.
Roseli Fígaro aponta os estudos de recepção para a crítica da comunicação, pois acredita e vê nos meios de comunicação um processo de interação social. Para isso é preciso resgatar a cultura, a idéia de sujeito senão não se conseguira pensar o processo de comunicação.
A escola pode recuperar seu lugar de importância nessa discussão. Para esse fim, temos de retornar o conhecimento e a formação humanística que ela já nos forneceu para repensar esse processo e a forma como temos abordado os meios de comunicação como todo poderoso, afinal atualmente as empresas dominam todos os tipos de comunicação, desde a TV, rádio, jornal, canal de noticias na internet ate os cd´s que ouvimos, ou seja, determinam desde o que iremos ler como notícias, informações até o que iremos ouvir para nosso lazer.
Meios de comunicação devem ser aplicados na educação a partir de mediações para que sejam mediadores entre nós e a realidade. Os professores também são mediadores, por constituírem e terem o poder de constituir.
Os meios não são meios de alienação, são produtos do trabalho social como mediador na construção dos significados que os trabalhadores dão as informações, através das mensagens, por isso as relações interpessoais são muito importantes e a escola possui grande importância para construção dos valores sociais.
Maria Lourdes Motter trata de três temas polêmicos e apresenta os três em harmonia. São eles: Educação, telenovela e crítica. Todos os “superiores na educação” (pais, dirigentes, professores, entre outros) não querem as novelas em salas de aulas, menos os alunos porque eles gostam, assistem e nelas encontram seus momentos diários de ficção. Eles conseguem muitas informações nas novelas, pois muitas vezes tem dificuldade de acesso a livros e jornais e, além disso, a novela tem o propósito de distrair e também de educar.
Delia Crovi Druetta aponta os desafios atuais da área de comunicação que são muitos. Se a maior parte da população do mundo tivesse acesso à informação, não só se reduziriam as diferenças em matéria de conhecimento, mas até mesmo seria um fator decisivo para elevar o crescimento econômico e a qualidade de vida nos países de menor desenvolvimento.
Os desafios culturais da comunicação a educomunicação são abordados por Jesus Matin Barbero em seu texto que afirma que a TV infelizmente não é vista como meio para fazer/criar cultura e que se essa visão fosse desmistificada poderíamos ganhar em muito em cultura, comunicação, informação.
A informação passou a ter um papel tão estratégico na política que sem ela dificilmente teria sido possível desenvolver-se um julgamento da corrupção dos políticos e da política. A sociedade centraliza o saber, porque sempre foi fonte de poder, por isso nem sempre os governantes desejam que a população possua o saber, visto que quem o possui pode abalar o poder e até mesmo querer adquiri-lo para ele.
Com as tecnologias avançadas que temos atualmente a escola deixou de ser o único lugar do saber, pois com as mídias o saber pode circular por vários lugares e diferentes pessoas podem o administrar.
Atualmente o sistema escolar não leva os jovens a uma leitura e escrita criativa, ao contrário o sistema é fechado e já tem tudo determinado e quando se fala em tecnologia, surgem às maiores barreiras. Existem professores que perdem a instabilidade diante da tecnologia. Na construção de cidadãos a educação tem de ensinar as pessoas a ler o mundo de maneira cidadã, pois gente livre significa não modismos, mas gente que pensa com a própria cabeça e não com as idéias que circulam ao seu redor.
Jose Martinez de Toda y Terrero apresenta sua pesquisa sobre a avaliação de metodologias na educação para os meios e o que vemos atualmente é um método onde o estudante tem que repetir tudo que é ensinado pelo professor e assim há uma desvalorização do conhecimento do aluno, pois segundo os professores esse método troca o conhecimento falso e ideologizado pelo objetivo.
Existem vários tipos de receptores, entre eles podemos citar o receptor ativo que faz comparação dos textos da TV com o seu contexto; o receptor conhecedor tem um grande conhecimento sobre a TV e cada vez mais aperfeiçoa esses seus conhecimentos; o receptor maduro que tem na TV as soluções a seus problemas diários e oferece respostas sobre suas identidades e que tem a TV como um amigo; o receptor social que quer comentar com todos a sua volta o que viu na TV e que amam o rock, pois lhes cria um espaço onde podem ser eles mesmos; o receptor crítico que analisa o texto de novo e o confronta mais profundamente com sua identidade cultural. Lembrando que o autor cita a TV para estabelecer o tipo de receptor, mas aqui poderíamos usar qualquer tipo de mídia.
Não poderemos ser críticos, sem antes termos uma identidade cultural a qual poderemos nos referir. A reflexão nos ajuda a sermos críticos, menos manipulados e explorados.
Guillermo Orozco-Gómez mostra a tríade e o desafio do século XXI: comunicação, educação e novas tecnologias. As tecnologias seriam o suporte da comunicação educativa.
Uma decisão política do representante do poder estabelecido determina o curso do desenvolvimento tecnológico. Uma nova tecnologia só chega a ser tal quando é mercadologicamente viável e politicamente conveniente por isso toda tecnologia podia e pode ser outra, diversa, mas devido às razões de mercado, grandes setores ficam de fora dos benefícios tecnológicos ou tem de se contentar com menor qualidade, ou seja, há a exclusão de muitos e inclusão de poucos.
A cultura que o ser humano possui influi muito no uso da tecnologia. Cada meio e cada tecnologia exercem uma mediação particular nas pessoas e a educação envolvida com os meios tecnológicos causará mudanças nos processos educativos e comunicacionais, com isso o objetivo principal não estaria no ensino, mas no aprendizado. Em relação a cultura e o uso da tecnologia, pode mudar muito o uso, por exemplo, uma tecnologia que se utiliza nos Estados Unidos, pode ser usada de modo diferente na Alemanha, por possuírem culturas diferentes.
Mario Kaplun aponta os processos educativos e canais de comunicação, pois não se pode considerar a comunicação somente como um mero instrumento midiático e tecnológico e sim como um componente pedagógico, onde se possa fazer uma leitura da pedagogia na comunicação e uma leitura da comunicação na pedagogia.
Educar-se é envolver em um processo de múltiplos fluxos comunicativos e para poder comunicar é necessário conhecer, saber para poder fazer transmissão desses conhecimentos e saberes para outras pessoas. A comunicação educativa consiste no desenvolvimento da competência comunicativa dos sujeitos educandos.
Os códigos de modernidade possuem três objetivos básicos que poderiam ser definidos também como objetivos da área educomunicação, são eles: formar recursos humanos, construir cidadãos e desenvolver sujeitos autônomos.
Enfim, não devemos apenas usar meios que falam, mas precisamos usar os meios para falar. No campo educomunicação temos muitas práticas, mas se teoriza pouco, por isso temos que teorizar em cima do que estamos aprendendo, vivendo para tornar o campo educomunicação mais teórico.
Na construção da teoria educomunicação surgem às discussões entre os campos que abrangem essa nova área. A educomunicação é desafiadora em todos os campos: teoria, prática, pois ela precisa sempre estar quebrando barreiras, paradigmas.
Em todos os textos vimos um pouco sobre a área e descobre-se através desse livro que envolve muitos campos, muitas polêmicas e por isso essa nova área é tão fascinante. Alguns conflitos surgem, mas a nova área pode ser a solução para os conflitos e principalmente solução para problemas que trazemos desde o princípio da educação em nosso país.

A educomunicação é conflito, mas também diálogo e construção.

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